COIMBRA,4 de Abril de 2025

Turismo em Portugal ameaça gastronomia tradicional

3 de Abril 2025 Rádio Regional do Centro: Turismo em Portugal ameaça gastronomia tradicional

A crescente afluência turística em Portugal está a comprometer a autenticidade da gastronomia local e a promover um aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, aponta um estudo realizado por embaixadores do Pacto Climático Europeu.

“O turismo deveria valorizar os sabores e produtos regionais, mas, na realidade, está a incentivar padrões alimentares uniformizados e menos saudáveis, colocando em risco a identidade gastronómica e a segurança alimentar das comunidades”, alerta Amélia Delgado, embaixadora do Pacto Climático Europeu e coordenadora do estudo.

O relatório, intitulado ‘Food and Tourism Nexus, Challenges and Opportunities’, revela que a inflação dos preços dos alimentos, especialmente nas épocas de maior fluxo turístico, tem levado à substituição dos produtos sazonais e locais por opções mais comerciais, alinhadas com as preferências dos visitantes.

Os autores do estudo alertam que, se nada for feito, a cultura alimentar portuguesa poderá perder-se. Em resposta, o Pacto Climático Europeu exorta a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) a adoptar políticas que integrem a sustentabilidade alimentar no planeamento urbano.

“A ANMP deve liderar um esforço conjunto dos municípios para salvaguardar os produtos regionais e a autenticidade da gastronomia nacional”, defende a organização.

Para especialistas da área alimentar, o turismo pode desempenhar um papel positivo na preservação da culinária tradicional. No entanto, sem uma estratégia bem definida, o sector continuará a favorecer a introdução de alimentos industrializados em detrimento dos produtos locais, prejudicando a economia rural e o património gastronómico.

A tendência de substituição de ingredientes locais por ultraprocessados tem implicações preocupantes, não só para a saúde pública, mas também para a resiliência das cadeias de abastecimento alimentar e para as estratégias de adaptação às alterações climáticas.

Segundo Amélia Delgado, os visitantes muitas vezes optam por refeições baseadas em produtos industrializados ou importados, que não reflectem os hábitos alimentares locais nem garantem uma dieta equilibrada. Com isso, grandes empresas da indústria alimentar, especialmente as que produzem ultraprocessados, têm vindo a ganhar espaço, fornecendo produtos congelados e pré-preparados até mesmo a restaurantes considerados tradicionais.

“A restauração tradicional, na tentativa de reduzir custos e responder às expectativas dos turistas, acaba por recorrer a produtos de menor qualidade, afastando-se da verdadeira gastronomia portuguesa”, lamenta a investigadora.

A Dieta Mediterrânica, considerada património cultural e alimentar, tem sido erroneamente associada à escassez de recursos, quando, na realidade, representa um modelo alimentar equilibrado, onde o consumo de carne e peixe é complementar e não predominante.

“Trata-se de uma tradição alimentar baseada na sazonalidade e na redução do desperdício, mas, actualmente, os pequenos produtores enfrentam dificuldades para competir com grandes cadeias de distribuição que oferecem produtos mais baratos, embora menos sustentáveis e nutritivos”, observa.

Para os investigadores, o factor preço não deveria ser o único critério na escolha dos alimentos.

“A alimentação é um direito essencial e os actuais sistemas alimentares representam um custo elevado para a saúde pública, para as economias locais e para o meio ambiente”, sublinha Amélia Delgado.

O estudo ‘Food and Tourism Nexus, Challenges and Opportunities’ integra o ‘Global Nutrition Dialogues Synthesis Report’, uma iniciativa da ONG 4SD, apresentado em Março, em Paris.

Além de Amélia Delgado, participaram na investigação os embaixadores do Pacto Climático Europeu Luísa Barateiro, Rosmel Rodriguez e Anna Staszewska. O estudo baseia-se em inquéritos a especialistas de diversas áreas, incluindo uma médica especialista em obesidade, uma produtora de azeite, um chef, investigadoras em urbanismo e turismo e um economista.

Fonte: Campeão das Províncias

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